Entrevista: Mônica Yassuda fala sobre psicologia e envelhecimento

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‘As pessoas, quando pensam em idosos, pensam em indivíduos cheios de rugas, e problemas de saúde, o que é um estereótipo’, afirma

Monica Yassuda | Portal Amigo do IdosoA preocupação com o envelhecimento é sempre muito grande. Por um lado, os riscos de doenças, sejam físicas ou mentais, aumentam; por outro, a beleza da juventude se esvaece, o que para muitos pode significar um enorme prejuízo. Com tudo isso, as atividades normais do dia a dia podem ficar debilitadas, comprometendo, também, a relação com o outro, o que só faz crescer os problemas. O que fazer, então, para se ter um envelhecimento saudável?

Em entrevista ao Globo Universidade, a professora e psicóloga Mônica Yassuda fala sobre suas pesquisas na área do envelhecimento e nos mostra o que pode dar certo para chegar à Terceira Idade sem tantos obstáculos e como viver esta fase da vida da melhor forma possível.

Mônica Yassuda possui pós-doutorado em Treino Cognitivo em Idosos Saudáveis pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); doutorado e mestrado em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela Universidade da Flórida e graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é presidente da Comissão de Graduação na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP); é coordenadora do Bacharelado em Gerontologia e professora associada no curso de Bacharelado em Gerontologia também da EACH-USP. É membro do Comitê Estadual de Referência em Saúde da Pessoa Idosa da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, além de ser orientadora do Programa de Pós- Graduação em Neurologia da Faculdade de Medicina da USP e do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.

Globo Universidade – De onde surgiu o interesse pelo estudo do envelhecimento sob a perspectiva da Psicologia? Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória acadêmica?

MY – O meu interesse surgiu em função dos estudos sobre memória e envelhecimento. Quando fui para os EUA, no início da década de 1990, me deparei com estudos de professores da Universidade da Flórida sobre o envelhecimento das funções mentais complexas. Foi quando percebi que nunca tinha estudado nada sobre idosos e resolvi investir nisso. No mestrado, estudei sobre crenças e desempenho em tarefas de memória (sobre o quanto você ter crenças negativas sobre a memória afetam o seu desempenho, por exemplo), escrevi sobre o tema. Porém, no doutorado, direcionei meus estudos para a área do treino de memória, que era minha intenção desde o começo. Quanto à Psicologia no geral, me interessei, primeiramente, por querer entender o comportamento das pessoas, pois sempre tive dificuldade para compreender. De fato, a Psicologia é uma área fascinante, visto que dispõe de diversas formas de explicar o comportamento humano.

GU – Como pesquisadora, como é feito o seu processo de pesquisa? Quais são as etapas e as metodologias utilizadas para tal?

MY – Como em toda pesquisa, inicio com hipóteses, com perguntas; estas referentes aos processos e as relações entre as variáveis. A partir disso, escolho uma metodologia científica pensando na melhor forma de responder às perguntas propostas.

No meu caso, dentro da área da psicologia, trabalho bastante com questionários. Recentemente, inclusive, fizemos uma pesquisa sobre a fragilidade dos idosos. Foram 384 idosos entrevistados em uma pesquisa epidemiológica (aquela feita de porta em porta) na região da USP Leste, mais ou menos como a metodologia do censo demográfico realizado no Brasil. As entrevistas eram constituídas por questões relacionadas à saúde e bem-estar, por exemplo, além de serem aplicadas provas cognitivas. Avaliamos também critérios de fragilidade e analisamos a relação entre ser frágil e ter um desempenho cognitivo ruim. Outra pesquisa que realizamos envolve treino cognitivo. Avaliamos um grupo para o qual é oferecido um programa de aperfeiçoamento de memória e um outro grupo fica na lista de espera. Ao final, os dois grupos são comparados e, posteriormente, oferece-se o treino ao segundo. É uma pesquisa baseada em intervenção, avaliação das pessoas antes e depois do tratamento.

GU – Como os resultados de suas pesquisas podem ser transformados em medidas que beneficiem os idosos?

MY – No meu caso, essa avaliação é muito direta porque, na questão do treino cognitivo, a gente está sempre tentando encontrar um programa de treino que seja sempre o mais eficaz possível. Descobrimos que como os idosos no Brasil tem menor escolaridade é bom treinar mais vezes com uma quantidade pequena de estratégias. No caso do treino de memória, é uma pesquisa muito aplicada. Serve para ajudar indivíduos a ficarem independentes por mais tempo.

GU – Hoje, fala-se muito em Gerontologia. Como possui pós-graduação na área, poderia nos falar um pouco sobre? O que é Gerontologia?

MY – A Gerontologia é um grande campo de estudo que trata do envelhecimento humano e dos animais (nesse caso, como maneira de entender o que acontece com o homem). O foco da área está no envelhecimento, no ficar velho e na velhice, que é uma fase do ciclo vital. Uma pessoa pode formar-se Gerontólogo de diversas maneiras: ele pode ser um fonoaudiólogo, um psicólogo, assistente social, um arquiteto ou mesmo um médico, que faz especialização, mestrado ou doutorado em Gerontologia.. Em 2005, a Universidade de São Paulo (USP) criou o curso de bacharelado em Gerontologia, que visa desenvolver gestores da atenção ao idoso. Formados, os profissionais têm a possibilidade de trabalhar coma gestão de equipamentos sociais ou na área da saúde. Temos egressos trabalhando na gestão de programas para idosos, por exemplo, uma egressa que está envolvida em um programa para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis entre indivíduos que já estão na velhice.

GU – Em sua opinião, por que hoje em dia há tanta dificuldade em relação à aceitação do envelhecimento? Acredita que algo poderia ser feito para mudar esse quadro? Em caso de resposta positiva, o quê?

MY – A grande dificuldade é que o envelhecimento está associado ao aumento das vulnerabilidades tanto físicas quanto sociais. As pessoas, quando pensam em idosos, pensam em indivíduos cheios de rugas, e com problemas de saúde, o que é um estereótipo. O risco para alguns problemas, de fato, aumenta, mas há muitos indivíduos que conseguem se manter saudáveis. As pessoas estão conseguindo, cada vez mais, driblar essas vulnerabilidades, principalmente por meio de atividades físicas, intelectuais, sociais… o que as ajuda a continuar socialmente engajadas e não excluídas da sociedade. Acredito que a educação pode mudar esse quadro de estereótipos, com divulgação de dados realistas sobre essa faixa etária, palestras, programas, artigos nos jornais. A educação sobre o envelhecimento, sobre o que é ser idoso, pode ajudar as pessoas a envelhecerem de uma forma mais equilibrada.

GU – Quais os principais sintomas da velhice que indicam algo prejudicial à saúde mental? Que variáveis (gênero, condição sócio-econômica, escolaridade…) podem influenciar esses sintomas e como elas o fazem?

MY – Há três principais problemas: as demências (significa ter alterações nas habilidades mentais complexas a ponto de gerar um prejuízo nas atividades do dia a dia – memória, organização do dia, atenção, linguagem, funções executivas e viso-espaciais). Quando se tem alterações em duas ou mais dessas áreas que geram dificuldade nas atividades do dia a dia – como cozinhar, ir ao banco ou jogar cartas, por exemplo – suspeita-se de demência. É interessante que, nas pesquisas, descobrimos que, quanto mais alta a escolaridade, menor risco o indivíduo tem para desenvolver demências. Outro problema são os transtornos de humor, principalmente a depressão que, na pessoa idosa, pode se manifestar como falta de prazer em fazer as coisas que antes eram prazerosas ou por sintomas físicos, como não sentir fome, ter problemas com o sono. O terceiro problema refere-se aos transtornos de ansiedade, como o medo de sair de casa, medo de enchentes, de assalto que também podem gerar isolamento social…

Entre as variáveis que podem influenciar esses sintomas estão: a educação – baixa educação é um dos principais fatores de risco para problemas cognitivos; o gênero e a baixa renda – ambos relacionados com a baixa escolaridade , pois o índice de mulheres idosas com baixo nível escolar é maior que o de homens, e, quanto menor a renda, mais simples são as ocupações dos indivíduos. Por fim, a idade também é uma dessas variáveis, visto que, quanto maior a idade, mais altos são os riscos de aparecerem problemas cognitivos.

GU – Como pode ser caracterizado um envelhecimento saudável? E o que um indivíduo adulto pode fazer para alcançar esse tipo de envelhecimento?

MY – É difícil dar uma receita. A definição clássica do bom envelhecimento é conseguir evitar doenças, conseguir manter-se ativo social, mental e fisicamente. Problemas vão surgir muitas vezes; eles começam na meia-idade, entre os 40 e 60 anos aproximadamente. As pesquisas têm mostrado a grande importância do estilo de vida ativo: é importante que as pessoas nunca parem de aprender coisas novas, que tenham uma atividade física regular, uma alimentação saudável (com muita verdura, muitas fibras, pouca gordura, pouco sal…) e que abandonem o tabagismo e o álcool.

GU – É comum a depressão se fazer presente na terceira idade? Por quê? O que fazer para evitá-la?

MY – O que temos é um maior número de sintomas depressivos relatados por pessoas idoue não necessasas, qriamente atingem os critério para depressão maior. O que fazer para evitar a depressão: o isolamento social é péssimo. É importante fazer parte de grupos, ter projetos de vida, ter metas e querer vê-las cumpridas. Pesquisas americanas mostram que ter um projeto de vida tem relação com mais anos de vida e menor risco para demência, o que é bem importante para a velhice.

GU – Qual sua opinião a respeito da Universidade da Terceira Idade (UNATI)? Ela colabora para uma velhice mais saudável? Como?

MY – Na USP Leste temos uma UNATI bem ativa, onde atendemos cerca de 300 idosos por semestre com atividades bem específicas para eles, como atividades físicas, grupos de reflexão e oficinas de memória. Entendemos que a UNATI é um dos caminhos para a pessoa idosa continuar estimulada do ponto de vista mental, social e físico. Pessoas procuram, inclusive, se engajar mais cedo a partir dos 50 anos.

GU – Que dicas você daria para alunos que pretendem se aprofundar nos estudos de psicologia do idoso ou em gerontologia?

MY – As pessoas devem fazer trabalhos voluntários junto a população idosa dentro de uma instituição de longa permanência (asilos), em um núcleo de convivência ou em uma UNATI, por exemplo; outra sugestão é que as pessoas leiam muitos livros e artigos produzidos pelos profissionais que investigam temas gerontológicos. Desta forma, a pessoa poderá sentir-se encantada com essa área ou não e ver se é nesta área que ela quer trabalhar.

Fonte: http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2012/10/entrevista-monica-yassuda-fala-sobre-psicologia-e-envelhecimento.html