Serviço de Psicologia Clínica para Idosos é pioneiro no SUS

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Estudo do Instituto de Psicologia (IPUSP) analisa a experiência pioneira de implantação de um serviço de Psicologia Clínica, voltada à saúde de idosos, no Centro de Referência do Idoso da Zona Norte de São Paulo (CRI-ZN), pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS).

A fim de compreender as necessidades específicas dessa faixa etária e buscar maneiras de supri-las, Fernando Genaro Junior, o psicólogo responsável pelos atendimentos clínicos do CRI-ZN, realizou essa pesquisa, que resultou em sua tese de Doutorado “Clínica do Envelhecimento: o processo de implantação de um serviço de psicologia clínica no SUS”, defendida no Instituto de Psicologia da USP, em fevereiro de 2013.

Tal serviço foi implantado em 2007, desde então, Fernando, que arquitetou o projeto, mesmo sem pensar ainda em fazer dessa experiência uma tese de doutorado, produziu uma espécie de diário de campo, coletando os dados dos pacientes.

O atendimento foi organizado e norteado por dois eixos: o psicodiagnóstico e o de terapia – eixo psicoterápico. O psicodiagnóstico é a porta de entrada do paciente e consiste na avaliação do mesmo, individualmente, já no eixo psicoterápico, as consultas compõem-se de atendimentos tanto individuais quanto grupais.

Dentre os grupos terapêuticos, de no máximo oito pessoas, existem os temáticos que contam com pessoas de mesma situação clínica ou médica: “é muito proveitoso escutar que existe alguém na mesma condição, e então trocar experiências” disse o psicólogo. Os pacientes, em sua maioria, não têm receio em compartilhar suas histórias diante de um grupo, Fernando afirma que existe a necessidade de ter alguém que escute, ainda mais na velhice, então ele conta que o trabalho sempre flui com facilidade.

“Diante da psicologia que a gente conhece como Psicologia do Desenvolvimento, alguns autores vão sendo colocados em xeque” explicou o pesquisador. Na Psicologia do Desenvolvimento, a velhice ainda pouco compreendida em suas vicissitudes. Para autores mais clássicos, como Freud, a partir da maturidade, não seria mais possível ajudar psicologicamente, e que o destino fadado era o declínio e morte.

Fernando Genaro Junior usou como base para sua pesquisa os teóricos Winnicott, seus ensinamentos acerca da importância do ambiente ao longo da vida, e Gilberto Safra, para discutir as questões constitutivas e éticas próprias da clínica do envelhecimento.

As demandas do paciente idoso na psicologia clínica são específicas: a medida que se envelhece, perdas acontecem em todos os âmbitos, inclusive no próprio corpo, por isso, ao lidar como idoso, o psicólogo precisa estar em um diálogo contínuo com o luto.

“Do ponto de vista clínico, uma das questões que aparece claramente, é uma certa desconstrução do si mesmo, um certo desvencilhamento”, comenta Fernando.Entre essas desconstruções encontra-se a sexualidade, um tema tratado pelos idosos nas consultas psicológicas.

Além disso, a necessidade do perdão é um assunto muito recorrente, segundo o pesquisador: “Porque dentro da revisão do sentido da vida é muito presente a necessidade de se perdoar, de perdoar aquilo que não aconteceu, ou perdoar aquilo que aconteceu, mas aconteceu de um jeito torto, enfim, perdoar a vida, para que se abra um novo espaço onde algumas coisas possam ser recolocadas e vividas diante do fim, da morte.”

Em razão do grande número de encaminhamentos, em que muitas vezes o idoso não demandava atendimento psicológico, foi decidida a realização de palestras e conversas sobre temas difíceis, e recorrentes entre os idosos, para preparação dos médicos da instituição.

O resultado dessa intervenção foi muito proveitoso/vantajoso, alega Fernando Genaro Junior: “Do ponto de vista humano esses médicos começaram a se defender menos dos seus pacientes e o tipo de consulta também se tornou uma consulta melhor.” Além de reduzir a quantidade dos encaminhamentos.

Com o crescimento da população idosa faltam-se serviços especializados – principalmente na psicologia – Fernando conclui acerca da importância do que ele organizou: “A gente vive numa sociedade onde a velhice ainda vive à margem, então eu acho que a importância do serviço [desenvolvido pelo CRI-ZN] também é contemplar um lugar dedicado ao velho”.

onte: IP USP

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