Idosos derrubam estereótipos e descobrem mundo de possibilidades na internet

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Além do computador, Maria da Purificação Figueiredo Sepúlveda, de 74 anos, tem um iPad por meio do qual conversa com a filha Mônica, que mora na Alemanha (Leandro Couri/EM/D.A Press)
Além do computador, Maria da Purificação Figueiredo Sepúlveda, de 74 anos, tem um iPad por meio do qual conversa com a filha Mônica, que mora na Alemanha

 

Está nascendo, ou melhor, renascendo, uma geração disposta a não ter fronteiras e a quebrar os antigos rótulos que um dia impuseram a ela. E carrega consigo o nome 3T – “ Trocar o Tricô pelo Teclado.” É isso mesmo. São homens e mulheres acima dos 65 anos que decidiram abrir seus leques de oportunidades e decolar no mundo virtual. São vovôs e vovós que estão nas redes sociais, trocam e-mails, mensagens, rodam o mundo com um só clique e se comunicam com o universo por meio das novas tecnologias. Sabem mais que muito marmanjo por aí e garantem: estão mais jovens e felizes, alguns até mais próximos dos netos e filhos. Para especialistas, otimistas com essa revolução, a cada clique a geração 3T está beneficiando a mente e a alma, já que a web pode ser uma das armas para evitar o mal de Alzheimer e a solidão.

Como toda e qualquer revolução que se preze, essa, levantada por aqueles que já viram grandes mudanças no mundo, ainda não é aderida por todos dessa faixa etária. Ainda há resistências que a geração 3T quer derrubar, a fim de aumentar seu batalhão de novos internautas e a efervescência ficar mais divertida. De acordo com uma pesquisa divulgada em fevereiro pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), a nova geração está começando aos poucos. O instituto entrevistou 20.736 pessoas de 65 a 75 anos entre julho de 2011 e agosto do ano passado, nas regiões metropolitanas das principais capitais do país, entre elas Belo Horizonte. Segundo o estudo, 52% dos entrevistados afirmam que se confundem com os computadores, mas no mesmo grupo, 28% já tratam de se manter atualizados com os avanços tecnológicos.

Em relação ao uso da internet, as pesquisas apontam crescimento no número de usuários seniores nos últimos anos. Em 2012, de acordo com o Ibope, havia em todo o país 94 milhões de brasileiros internautas. Em janeiro de 2013, os idosos representaram 1,95% desse total, o que revela uma alta de 8,3% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Quando comparado com 2011, esse aumento é ainda maior: 39,3%. “É uma nova tendência. Existe cada vez mais a preocupação dessa turma em aprender e estar atualizado”, comenta, satisfeito, o geriatra e diretor-geral da Universidade Aberta da Terceira Idade, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Renato Veras.

A satisfação do especialista é porque, a cada clique, os novos internautas descobrem o mundo de possibilidades que a web oferece. A geração 3T não quer saber mais dos velhos estereótipos que seus avós um dia receberam. “Não queremos ser um grupo que se isola, que fica em casa, faz tricô e pronto. Queremos participar e fazer barulho”, comenta Maria Eugênia Cerqueira, de 65 anos, e uma das criadoras do blog Amantes da Vida – um site com dicas culturais, gastronômicas e turísticas voltado para os maiores de 50.

Apaixonada com esse mundo virtual, Maria da Purificação Figueiredo Sepúlveda, de 74, mais conhecida como Pupê, é internauta de mão cheia. Além do computador, tem um iPad por meio do qual conversa com a filha Mônica, que mora na Alemanha. “Estou livre. Sou uma pessoa ativa. A gente não pode ficar apática desse universo. Converso com minhas amigas, meus filhos e netos pela web. Moro sozinha e, assim, estou ligada a outras pessoas”, diverte-se.

E ela tem razão. De acordo com estudos feitos no mundo inteiro, a web faz bem à saúde mental dos idosos. Segundo pesquisa da Universidade do Arizona (EUA) divulgada este ano, o Facebook pode ajudar pessoas idosas a manterem o cérebro “em forma.” Na Itália, em 2011, os cientistas defenderam que a rede pode evitar a perda de memória. “É uma forma de exercitar as funções cerebrais. A atividade física é muito importante, mas é preciso exercitar a mente também”, avisa o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/MG, Rodrigo Ribeiro dos Santos.

Um mundo de possibilidades

Para uma geração que uma carta podia levar meses entre ser escrita e ser recebida, que se acostumou a conversar por telefone fixo e conhece bem a ansiedade por um telegrama, o computador e suas possibilidades assustam. Mas, quem foi que disse que essa turma não quer se arriscar? Certos de que o melhor desta fase da vida é o tempo livre e a vantagem de não ter pressa, os novos internautas não têm medo de fuçar, errar e fuçar de novo. E assim foram pescados pela rede e suas janelas. Para eles, o que era desafio se tornou companhia, entretenimento, juventude, saúde e, acima de tudo, uma forma de se aproximar das gerações que já nasceram com essas possibilidades a um toque das mãos.

O mouse ajudou Maria Arminda, de 84 anos, a recuperar os movimentos do lado direito, comprometidos por um AVC  (Leandro Couri/EM/D.A Press)
O mouse ajudou Maria Arminda, de 84 anos, a recuperar os movimentos do lado direito, comprometidos por um AVC

Depois de ter perdido o pai e outros parentes com Alzheimer, Maria Arminda Lopes pesquisou sobre a doença e entendeu que era preciso se manter ativa para não sofrer dela. Em 1998, teve um câncer de tireoide e, em 2009, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Por dois anos ficou na cama, usou cadeiras de roda e precisou de cuidadora. Hoje, Maria Arminda tem 84 anos e uma atividade intensa. Além da academia, faz caminhadas, crochê e navega pela internet. O mouse, por exemplo, foi uma ferramenta que ajudou Maria a recuperar os movimentos do lado direito, afetado pelo AVC. “Tive meu primeiro computador aos 60 anos, não sabia nem o que era um mouse. Fiz um curso de computação por uma semana e fuçando fui aprendendo a mexer na máquina”, conta.

De tanto apertar botões daqui e dali, Maria hoje mexe com jogos, Facebook e e-mails todos os dias. Além da máquina, ela acessa sua caixa de e-mails pelo smartphone. “Mexo diariamente, até quero comprar um notebook para poder usar quando viajar. Viajo muito e quero estar conectada”, comenta Maria, que diz que o lado bom de estar com as mãos ativas no teclado é trabalhar a mente. “A gente trabalha o raciocínio, se atualiza com as notícias e se diverte. Tenho uma neta que está fazendo intercâmbio e tenho mantido contato com ela, acompanho as fotos que ela posta nas redes sociais e trocamos e-mails”, conta, satisfeita em dizer que sua mente está a todo vapor.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/MG, Rodrigo Ribeiro do Santos, há dois grupos de idosos no Brasil: aqueles que usam as novas tecnologias, como Maria, e outros que têm preconceito em usar e aprender, ficando completamente à margem disso. “Os que usam estão tentando reduzir o isolamento social, estão vendo aí um lazer e uma distração.” Rodrigo afirma que todos os cidadãos deveriam fazer atividades sociais para manter o bom funcionamento cerebral. “O medo do Alzheimer tem feito com que muitas pessoas estimulem suas funções cerebrais com essas tecnologias”, afirma, lembrando que, antigamente, se dizia que palavra cruzada era bom para evitar a doença, assim como o jogo de cartas chamado paciência. “É bom, mas não é só isso. Tem que fazer atividades variadas”, diz.

Ao usar as tecnologias, o especialista aconselha o internauta a mexer com e-mails, jogos, notícias e redes sociais como variedade de recursos para a mente. “São atividades com características diferentes. As tecnologias estão suprindo uma série de demandas e necessidades sociais. Há uma geração enorme que já nasceu com essas tecnologias como parte da vida. E para outra que não teve essa intimidade com a máquina. Por isso, ao ser tornar parte desse universo, se sentem mais jovens e atualizados”, diz.

Encontro de Gerações

Que o diga Adalberto Fernandes de Souza, de 70. Foi perguntando aos filhos e netos que ele começou a mexer dali e daqui em computador. “Hoje, uso-o para redigir textos, conversar pelo skyper, mandar e-mails e pagar as contas, é mais seguro do que ir ao banco”, comenta, defendendo que, ao envelhecer, é preciso fazer exercício para a mente para não deixar que falte alguma coisa. “A nossa tendência é perder a memória, as lembranças. Por isso não podemos parar no tempo”, defende.

Uma das paixões de Adalberto Fernandes de Souza, de 70 anos, é se divertir na máquina com o neto Samuel, de 8 anos  (Beto Novaes/EM DA Press)
Uma das paixões de Adalberto Fernandes de Souza, de 70 anos, é se divertir na máquina com o neto Samuel, de 8 anos

Mas uma das paixões de Adalberto é se divertir na máquina com o neto Samuel, de 8. “Brincamos com os jogos virtuais juntos. Ele me chama para jogar. Vamos trocando ideias e batendo papo. É muito bom”, diz Adalberto. Ele conta que, dessa forma, está cada vez mais próximo do neto, ao compreender a mesma linguagem dele. Essa conexão, de acordo com Marisa Sanabria, integrante do Conselho Regional de Psicologia e mestre em filosofia, é uma forma de acabar com o estigma da exclusão. “Assim, a faixa etária não é vista com isolamento. Há um retorno imediato que traz a sensação de fazer parte e de estar integrado nesse universo”, diz. Marisa acrescenta ser fundamental esse movimento pela internet depois dos 65 anos como forma de mostrar que, ao envelhecer, não se perde a convivência. “E se aproxima das novas gerações, pois os códigos e diálogos se assemelham”, observa.

População de idosos

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os idosos – pessoas com mais de 60 anos – somam 23,5 milhões de brasileiros, mais que o dobro do registrado em 1991, quando a faixa etária contabilizava 10,7 milhões de pessoas. Na comparação entre 2009 (última pesquisa divulgada) e 2011, o grupo da terceira idade aumentou 7,6%, ou seja, mais 1,8 milhão de pessoas. Há dois anos, eram 21,7 milhões de pessoas. São Paulo é o estado com o maior número de idosos: 5,4 milhões. Em seguida vem Minas Gerais, com 2,6 milhões, e Rio de Janeiro, com
2,4 milhões.

Que tal navegar?

Nunca pensou em usar essa tal internet? Então, confira as dicas de especialistas para perder o medo e dar o primeiro passo.

1) Procure um curso de computação para impulsioná-lo a usar a máquina
2) Não tenha medo de errar
3) Pergunte sempre a alguém sobre suas dúvidas
4) Tente fazer você mesmo, e não fique nervoso com os seus erros.
5) Fuçar é uma maneira interessante de conhecer os recursos dos computadores
6) Crie perfis nas redes sociais, você vai rever amigos, parentes e conhecer
pessoas novas
7) Crie e-mails e outras ferramentas para se comunicar
8) Nunca deixe de se atualizar

 Revolução digital

Era 1994. Gilberto Gil, que dispensa apresentações, empolgava o Brasil com sua canção Pela internet, em que apontava uma nova era de comunicação. “Eu quero entrar na rede/Promover um debate/Juntar via internet/um grupo de tietes de Connecticut”, cantava Gil. Assim como ele, naquele momento, muitos que acompanhavam essa revolução quiseram entrar nela. E quase 20 anos depois, ainda há muitos aprendendo, mostrando que não há idade certa para teclar, enviar, curtir ou compartilhar. E essa geração 3T (Trocar o Tricô pelo Teclado) quer ir além. Para eles, não basta só clicar ou mexer. Querem ter nas mãos as mais novas tecnologias e também produzir conteúdos para a rede.

 

 (Leandro Couri/EM/D.A Press)

Exemplo disso é o site Amantes da vida. No ano passado, três amigas decidiram criar um site direcionado à geração com mais de 50 anos. A princípio, a ideia era reunir dicas de viagens, bons espetáculos, restaurantes e textos bem-humorados que elas gostavam de escrever e os amigos gostavam de ler e comentar. Mas a iniciativa ‘bombou” na rede , atingindo nada menos do que 80 mil acessos nos primeiros meses.

Ana Maria Boucinhas, de 68 anos, Maria Eugenia Cerqueira, de 65, e Ana Devito, de 38, tiveram a ideia da página depois que perceberam que não havia na rede algo direcionado ao lazer daqueles com mais de 50. “Só se falava de problemas de saúde. Então, resolvemos ‘bombar’ o meio virtual com coisas divertidas e cheias de vida”, comenta Maria Eugênia, confessando que a ideia foi bem aceita pelo público-alvo. “Os idosos não querem ser excluídos dessa revolução na internet, querem participar e produzir”, comenta.

Ela diz que o mundo virtual acaba sendo um divertimento. “Temos uma amiga com mais de 60 anos que encontrou um namorado pelo Facebook. Atualmente, está viajando para conhecê-lo pessoalmente. É isso. Estamos vivos e fazemos parte dessa revolução da comunicação”, diz Maria Eugênia. Esse sentimento de estar mais vivo é compartilhado por Maria da Purificação Figueiredo Sepúlveda, de 74. Conhecida como Pupê, ela conta que, no início, foi um pouco resistente ao computador. “Há seis anos, comprei um. E achei a coisa mais maravilhosa do mundo. Sinto-me sempre atualizada. Estou nas redes sociais, posto fotos das minhas viagens e converso com os meus filhos”, diz.

Pupê tem quatro filhos, mas mora sozinha. Uma das filhas, Mônica, há 20 anos mora na Alemanha, e conversa diariamente com a mãe. Recentemente, Pupê ganhou um iPad. “Tem muita coisa para fazer com ele. Mas o que é mais importante é conversar, pelo skype, com eles. Conversamos sempre”, conta, satisfeita. Ela confessa ser sempre ativa, o que é bom para a alma e a mente. “É muito bom estar conectada. Isso ajuda nosso cérebro a funcionar mais.” É o que pensa também o cardiologista aposentado Carlos Eduardo Ferreira, de 67. “Temos que nos preparar para esse processo inevitável da memória mais prejudicada, com leitura, alimentação, exercícios físicos e computadores. As redes sociais, por exemplo, nos levam a pensar e, toda vez que pensamos, somos criativos.” Carlos criou, recentemente, uma página no Twitter. “É uma oportunidade de exteriorizar o que se pensa. Expor e trocar ideias. Todos os dias a gente aprende ou ensina algo a alguém. Essas ferramentas virtuais multiplicam o nosso poder de comunicação. Temos a possibilidade de entrar em contato com o mundo inteiro.”

Cursos

A demanda dessa geração que renasce e quer aprender tudo sobre as novas mídias já tem reflexo nos cursos. De acordo com Renato Veras, geriatra e diretor-geral da Universidade Aberta da Terceira Idade, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), há na escola 3 mil idosos. “Temos 120 cursos, sendo que um dos mais procurados é o de informática”, diz. Ele conta que o maior temor desse público é a digitação. “Eles querem aprender e temos visto que a computação já foi vista como impossível, mas não é mais. Eles estão vendo que são capazes e podem se comunicar com o mundo”, diz.

Em Belo Horizonte, o Serviço Social do Comércio de Minas Gerais (Sesc Minas), teve que formatar um curso de informática para atender a demanda dos maiores de 65 anos. “Atualizamos a grade, com redes socais, pesquisas e outros pedidos deles. O curso começou no semestre passado e temos, atualmente, uma lista de espera”, conta Érica Freitas, pedagoga e superintendente de educação do Sesc/MG. “A única diferença é o tempo de aprendizado. No entanto, os idosos estão atentos e querem aprender a mexer e a se comunicar”, conta, certa de que são possibilidade e novas janelas que se abrem para o público sênior.

Fonte: www.em.com.br

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