Com o avanço da idade, idosos ingerem vários remédios por dia

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Você sabe quantos medicamentos toma diariamente? Para que serve cada um? Já parou para pensar ou se perguntar se o uso de algum composto anula a ação do outro? Já sentiu algum mal-estar por isso? Para a farmacêutica Eliane Cristóvão, de Rio Preto, a polifarmácia é definida como o uso de cinco ou mais medicamentos e pode ser classificada entre leve (uso de 2 a 3 fármacos), moderada (uso de 4 a 5 fármacos) e grave (com mais de 5 fármacos).

“Na terceira idade, devido às doenças crônicas e suas manifestações clínicas decorrentes do envelhecimento, os idosos podem apresentar de duas a seis receitas médicas e utilizar a automedicação com dois ou mais medicamentos. Esta situação pode ocasionar reações adversas, pois, com o envelhecimento, as alterações fisiológicas, sobretudo hepáticas e renais, fazem com que esses pacientes idosos sejam vulneráveis e sofram facilmente as consequências dos efeitos secundários e das internações dos medicamentos prescritos”, diz.

De acordo com a geriatra Liha Bogaz, de Rio Preto, todos nós consumimos medicamentos durante nossa vida. Para coisas pequenas, como uma dor de cabeça, uma cólica, ou para tratamentos longos, os medicamentos, quando bem indicados, são coadjuvantes importantes para passarmos por nossa vida com mais qualidade. “E à medida que a idade avança – e estamos vivendo cada vez mais – o uso desses fármacos aumenta bastante, condição chamada polifarmácia. Essa mistura de remédios pode trazer sérios problemas se não for feita com um acompanhamento contínuo de um médico especialista no envelhecimento, o geriatra”, alerta.

A especialista ainda acrescenta que, com o passar dos anos, aumenta o risco das pessoas desenvolverem doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, cardiopatias, nefropatias, etc. “A vulnerabilidade biológica é inerente ao envelhecimento e, com isso, a pessoa idosa tende a usar várias medicações ao dia. É preciso ter cuidado com essa questão, e com os novos medicamentos que entram na rotina do paciente, pois um pode interferir no efeito de outro”, afirma Liha.

“Para saber se a medicação é fundamental ou se pode ser substituída ou reduzida, é fundamental que o paciente seja acompanhado periodicamente por um médico especialista no envelhecimento, o geriatra, que atua como o maestro que rege uma orquestra, analisando cada enfermidade, cada prescrição e as associações medicamentosas potencialmente prejudiciais, podendo assim evitar consequências danosas”, completa.

De olho na prescrição

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Maria Carmela Mazalli, 83 anos, toma cinco remédios todos os dias, e acredita que após a próxima consulta médica esse número deve aumentar.

Aos 83 anos, Maria Carmela Mazalli, de Rio Preto, a “Dona Carmem”, como gosta de ser chamada, toma diariamente 5 remédios, mas sabe que na próxima consulta médica esse número irá aumentar. “Não gosto de ficar tomando remédio sem parar, mas tenho que tomar, então eu ando com eles na bolsa e tomo todos nos horários estabelecidos”, conta. A filha, Creuza Mazalli Toledo, é farmacêutica e explica que sempre foi complicado fazer um diagnóstico preciso de sua mãe.

“Ela sempre tentou esconder da gente o que tinha. Um dia deixou um bife queimar, quando conversei com ela a resposta foi que o dia tinha sido corrido, que ela tinha muitos afazeres, mas não era uma falha de memória. Até que um dia se perdeu na feira e não lembrava como voltar para casa. A sorte foi que ela frequenta a mesma feira há 20 anos. Assim, um feirante a trouxe para casa e a vizinha dela me ligou. Fiquei extremamente preocupada. Levei ela ao médico. E só aí ela passou a assumir alguns esquecimentos”, diz.

Mesmo com a ajuda da filha, Creuza, dona Carmem mora sozinha com o marido. “Somos os dois independentes. Ele faz caminhadas todos os dias sozinho. Eu gosto de cozinhar. Tenho uma ajudante para limpar a casa, mas o resto fazemos nós dois. Cozinhar é uma terapia na minha vida. Já fiz muita comida pra fora. Fim de semana passado mesmo eu fiz macarrão caseiros e umas roscas.” Creuza conta que assim que levou a mãe ao médico soube que o que ela tem são microconvulsões e não doença de Alzheimer.

“Hoje, com a medicação, a memória dela está melhor, mas mesmo não gostando às vezes esquece de uma coisa ou outra. Faz um tempinho ela confundiu o remédio de pressão dela com o remédio de dor do meu pai. E todos os dias ficava mal com pressão alta, enquanto meu pai dormia muito. No fim, só descobri a troca quando meu pai chegou e falou que o remédio de dor dele acabou tão rápido, mas ela jura que a troca só ocorreu porque ele que trocou os remédios de lugar. É preciso ficar sempre de olho.”

Misturar não faz bem

Algumas misturas de medicamentos podem anular o efeito do outro ou, pior, potencializar o outro. “Só um exemplo: imagine se um idoso usa anticoagulante e uma medicação que potencializa o efeito do anticoagulante? O risco de sangramento será enorme. Algumas medicações são inapropriadas para pessoas idosas, pois neste grupo podem aumentar o risco de desenvolver insuficiência real; precipitar arritmias; causar sonolência excessiva (assim aumentando o risco de queda, entre outros); causar tremores e/ou fraqueza muscular, causar confusão mental, dentre outras reações adversas”, reforça a geriatra Liha Bogaz. Não existe um número exato de fármaco que a pessoa pode ingerir todos os dias.

“O correto é apenas fazer uso de medicamentos se realmente for uma necessidade, e estar sempre atento a como seu organismo está respondendo a essa medicação. É importante observar mudanças que podem ocorrer após o uso de algum medicamento e relatar isso ao médico. O horário e modo de administração também devem ser respeitados para atingir a melhor resposta terapêutica, por exemplo, se deve ser tomado em jejum ou junto às refeições ou se pode ser no mesmo horário que outro medicamento. O líquido ideal sempre deve ser a água”, explica Ana Carolina Tomaz Borges. Os especialistas alertam que se o idoso sentir dificuldade deve pedir ajuda à família e relatar sempre ao médico qualquer sintoma que tenha sentido com o uso ou a falta do medicamento. Não pode sentir vergonha falar, porque com medicamentos não se brinca. É a saúde que está em risco.

O perigo da automedicação

Tomar medicamentos sem ao menos saber como ou quais benefícios irão trazer não é inteligente. Se a pessoa for leiga e não entende do assunto, com certeza precisa de orientação. “Às vezes, o indivíduo acha que a automedicação é o caminho mais fácil e rápido, acha que vai fazer bem e não quer perder tempo de ir ao médico ou ao menos procurar ajuda. Por isso que é muito importante a conscientização de cada um, já que o comércio disponibiliza tudo e nem sempre tem um farmacêutico para ajudar”, alerta a farmacêutica Ana Carolina Tomaz Borges, de Rio Preto.

Ainda de acordo com Ana Carolina, o consumo exagerado de medicamentos muitas vezes pode ser reduzido ou substituído por outro menos agressivo; outras vezes não. “Isso é muito particular de cada indivíduo e precisa ser analisado individualmente. A quantidade de medicamentos disponíveis é muito grande, por isso as interações medicamentosas podem ser diversas. A atenção farmacêutica é importante e deve ser feita minuciosamente”, diz.

Fonte: diarioweb

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