E a Ficha Caiu… estamos preparados para a velhice?

0
794

Um dia, num restaurante com minha irmã e seu marido, ele comentou: “vocês precisam ir se preparando, porque seus pais já estão…” na verdade, nem conseguia aceitar o resto da frase.

Ele falou e meus olhos marejaram, porque ele apenas estava trazendo à luz uma coisa que nem eu e nem minha irmã estávamos preparadas para aceitar: a velhice e preparação para a partida dos meus pais.

É estranho isso. Apesar de ser algo tão natural, inevitável para todos os que ultrapassam as barreiras das mortes por acidente ou por doenças terríveis.

Já faz alguns anos que essa conversa aconteceu. Admito que foi importante esse papo aí. Doloroso, mas importante.

Conforme crescemos, temos a sensação de que só vamos continuar crescendo mesmo. Li uma vez que adolescentes têm essa sensação de eternidade. Algo assim – sugiro pesquisa caso se interesse.  E a gente vai crescendo com essa sensação de que a agilidade nunca vai acabar.

Continuaremos com pernas e braços fortes, raciocínio rápido, pique pra aguentar noites sem dormir na balada. Não imaginamos que uma hora a gente vai parar de subir e começar a descer. Não somos bem preparados para a descida.

Meus pais eram pessoas ágeis, como eu e minha irmã somos hoje. Minha mãe sempre dirigiu pra cima e pra baixo. Meu pai sempre nos deixava pra trás nos passeios, andando mais rápido do que podíamos. Ele sempre foi muito ativo.

A gente que é filho e está sempre por perto demora pra perceber as mudanças: rugas, o andar mais devagar, um leve atrapalhado nas ações, uma lógica meio estranha.

Eu só comecei a perceber quando passaram a reconhecer meu pai como idoso na rua. Uma vez fomos a uma feira no ExpoCenter Norte – eu sempre carrego meu pai pra fazer umas coisas comigo – e uma moça na recepção já chegou com um adesivo para colocar no peito do meu pai, porque ele era idoso e não precisaria pagar para entrar. Sem que precisássemos solicitar. Isso foi estranho pra ele e pra mim.

Ele já ficava incomodado, até bravo, quando cediam o lugar para ele no ônibus. Isso também incomodou. Mas só aí percebi, como se tirassem um filtro dos meus olhos. Meu pai agora não era mais o meu pai de antes.

O difícil disso tudo é que aquela pessoa de antes ainda está lá dentro. Quem ele foi não se apaga totalmente. Mas a mudança é grande o suficiente para vermos outra pessoa ali. Difícil isso. Agora a gente precisa esperar pelo meu pai em nossos passeios. Ou andamos bem mais devagar. Precisamos falar mais alto, porque ele não escuta direito e, apesar de ter aparelho auditivo, se recusa a usar. As manias deles parecem ter se potencializado com a idade. Parecem caricaturas do que eram pequenas manias comuns.

Faz dois anos que estou trabalhando “home office”. Com isso, percebi melhor o quanto eles mudaram nos últimos dez anos. Há doze anos também trabalhei um tempo em casa e achava legal porque eu estava podendo ter um tempo maior com meus pais.

Já pareciam pra mim como idosos que precisavam de cuidado. Só que não. Se viravam super bem. Era mais uma percepção de que o tempo estava passando e em algum momento eles não estariam mais por perto. Mas era uma percepção diferente de agora. Antes eu estava, de certa forma, aproveitando melhor o tempo com eles. Agora parece que precisam mais de ajuda.

Eles ainda se viram, não estão incapacitados. Só que agora eu sinto mais forte, junto com eles, as dificuldades das coisas do cotidiano. Muitas vezes fico admirada com o tipo de explicação que preciso dar para eles. E com a quantidade de vezes que preciso repetir a mesma explicação.

De onde estou no momento, de um lado vejo um mundo rápido, que parece ganhar cada vez mais velocidade e, de outro, os meus pais, num ritmo muito mais lento, que parecem se encaixar cada vez menos nesse mundo. Ou que, em alguns momentos, parecem ser atropelados pelas coisas desse mundo cheio de pressa.

Então percebi: não estamos preparados para a velhice. De nossos pais e a nossa.

Fabiana Tamie Makiyama é Nipo-italo-hispano-brasileira. Publicitária, designer, redatora, tecladista, cantora, fotógrafa, nascida há mais de quarenta com pique de vinte.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here