O que esperar quando se está envelhecendo

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Nós teremos de aprender coisas novas, incluindo outra profissão

A pergunta é pertinente – essencial, talvez – porque minha família não é um caso isolado. A tendência é geral. Desde os anos 1960, a expectativa de vida ao nascer do brasileiro aumentou três décadas. Quando meu avô se tornou adulto, em meados do século 20, a expectativa de vida não alcançava os 50 anos; quem passava dos 65 não vislumbrava mais do que uma década à frente.

Atualmente a expectativa de vida ao nascer supera os 75 anos, e quem passa dos 65 espera viver mais quase 20 anos. Enquanto geralmente as pessoas são surpreendidas pela morte, essa foi uma geração surpreendida pela vida. E, como não imaginavam viver tanto, muitos não se prepararam para enfrentar os desafios impostos pelo envelhecimento, das doenças às reservas financeiras.

A surpresa da geração seguinte, os atuais idosos, não foi estar vivo, mas estar trabalhando na terceira idade. O aumento da expectativa de vida mudou drasticamente o cenário da aposentadoria. Se antes o sujeito ficava 10 ou 15 anos aposentado até morrer, agora estava arriscado a ficar praticamente um terço da sua vida, dos 60 aos quase 90, sem trabalhar. Isso não só minava uma fonte importante de identidade pessoal como também corroía as finanças. As reservas se exauriam enquanto o poder de compra das aposentadorias decrescia.

A saída foi trabalhar depois de se aposentar. Só entre 2010 e 2015, o número de trabalhadores registrados com mais de 65 anos aumentou quase 60%. Assim como a geração anterior estava desapercebida diante do desafio que lhe foi imposto, muitos dos atuais idosos, por não saberem que estariam trabalhando atualmente, não se prepararam, o que não facilitou nem um pouco essa reinserção.

E logo será nossa vez. Minha geração não duvida que estará viva e trabalhando na terceira idade. Qual será então a surpresa que nos espreita logo depois da curva da maturidade? Depois de queimar as pestanas, como se dizia, acho que finalmente encontrei uma resposta. E duas linhas de raciocínio me levaram à mesma conclusão: nós teremos de aprender coisas novas.

As mudanças na sociedade ocorrem cada vez mais rapidamente. Não se trata de mera percepção – sabemos de forma objetiva que novas tecnologias são absorvidas por mais pessoas em menos tempo e se tornam obsoletas de forma mais rápida que antes. Tanto é assim que hoje vemos profissões serem extintas pelo advento de novidades tecnológicas em um espaço de poucos anos, e não mais em décadas como antigamente.

Agentes de viagem, corretores e digitadores são apenas os primeiros de uma fila que não poupa contadores, motoristas e mesmo médicos na lista de profissionais ameaçados de extinção. Se tantas profissões virarão itens de museu em um intervalo temporal tão curto, e se teremos de trabalhar por tantos anos, já que viveremos tão mais, é provável que tenhamos mais de uma profissão ao longo da vida. Quando a primeira estiver em vias de acabar precisaremos aprender outra.

Faz sentido também se pensarmos em nossa linha de vida profissional. De forma geral, depois de nascer e crescer, nós estudamos, aprendemos uma profissão, trabalhamos, nos aposentamos e por fim morremos. Se a primeira surpresa foi morrer mais tarde e a segunda trabalhar por mais tempo, é de se esperar que a próxima seja a logo anterior na fila dos eventos vitais. Ou seja, aprender uma profissão, nova, quando já formos velhos.

Como podemos nos preparar para isso é coisa que ainda não descobri. Imagino que manter a curiosidade ao longo da vida, deixar a mente ativa e cultivar interesses variados seja um caminho.

Mas se alguém tiver mais ideias, por favor, compartilhe. Enquanto é tempo.

Fonte:Estadão

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