O sexo das idosas e dos idosos

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Nesta entrevista fantástica a Carta Maior, Teresa Negreiros faz observações acuradas sobre a vida sexual dos idosos

“Os homens, a partir da década de 90, quando apareceu o Viagra, retomaram sua potência. A sexualidade masculina sempre foi voltada para o poder. A potência sexual masculina foi readquirida com o Viagra,’’ comenta a psicóloga Teresa Creuza Negreiros, nesta entrevista que concedeu a Carta Maior, no Rio de Janeiro, fazendo observações acuradas sobre a vida sexual das idosas e dos idosos – ainda hoje um assunto tabu, pouco abordado, em especial no caso das mulheres.

O que a professora Negreiros constata, nos anos de prática clínica e teórica do seu trabalho – que se estende até hoje – é a mulher mais velha, na sua maioria, se sentindo “estimulada por um homem mais jovem, tendendo a sublimar o desejo por conta de cobranças sociais internalizadas.’’

Doutora em Psicologia Clínica e professora aposentada na PUC/RJ, psicóloga clinicando desde a década de 80 e autora de tese de doutorado Os conflitos e confrontos da meia idade da mulher, e organizadora do livro A Nova Velhice (Ed. Revinter), Teresa Creuza Negreiros continua pesquisando, dando palestras e participando de seminários nacionais e internacionais sobre envelhecimento dessa atual geração de mulheres e homens nascidos no pós-guerra (os baby boomers) os quais, se por um lado revolucionaram modos e costumes quando jovens, por outro, agora, ao envelhecer, se mostram, em aspectos como o sexo, quase tão conservadores quanto seus pais.

Nossa conversa:

Carta Maior – Em que medida os movimentos feministas se relacionam com a questão da sexualidade de mulheres e homens idosos?

Teresa Negreiros – Até aqui houve três ondas de atitudes relacionadas ao feminismo. A primeira, quando as mulheres começaram a contestar a dominação total do homem. Até então, elas não tinham direito a propriedades nem ao voto. Foi um movimento dirigido à conquista de direitos civis. A segunda onda do feminismo ocorreu na década de 60, com o advento da pílula e da queima de sutiãs. Nessa época, o que se discutia era o corpo feminino. A questão de a mulher ser dona de seu próprio corpo, o direito ao aborto e a questão de ter prazer com o sexo desvinculado da reprodução. A mulher passava a participar da produção – antes, a representação da mulher se encontrava na reprodução e a do homem na produção. E a terceira onda, de agora, quando se fala tanto de LGBTQ – movimento de lésbicas, gays, transgêneros e queer.

CM – Mas e a sexualidade dos idosos?

Pode ser até que o quadro mude, mas por enquanto ainda há muito ranço das visões antigas, até porque a ciência, tal como  a psicanálise,  foi disseminada de acordo com a cultura da época,  com preceitos e preconceitos. Falava-se, por exemplo, com ênfase, no decréscimo do desejo com a chegada de mais idade, e na sua sublimação. Claro que há um decréscimo do desejo nos mais idosos por conta da questão hormonal. Mas a potência sexual masculina foi readquirida com o Viagra. Assim, a possibilidade de exercer influência sobre uma pessoa ou um grupo  desde que o homem tivesse boas condições financeiras, sociais e/ou políticas foi mantida. Enquanto à mulher nunca foi legitimada a existência de seu desejo. E, quando essa possibilidade foi conquistada, o desejo feminino permaneceu atrelado ao desejo masculino, isto é, continuou ligado a exercer fascínio para despertar atração ao homem. Por mais que a cosmetologia avançasse com a prática dos procedimentos de rejuvenescimento, das cirurgias plásticas, dos recursos ornamentais, digamos assim, as mulheres continuaram diminuídas e dependentes do olhar masculino; e o homem poderoso continuou  revitalizado pela juventude das mulheres. As mais velhas ainda tendem a ser um pouco – um pouco bastante – relegadas a um segundo plano. E se ela se sentia estimulada por algum homem mais jovem, reprimia este desejo por conta das cobranças sociais internalizadas: homem mais velho com mulher mais jovem está aprovado, desde que ele seja “poderoso”; mas o oposto não. Daí, a maioria das idosas continua sublimando o desejo,  dirigindo suas atenções para outros campos – netos, as artes etc.

CM – Há homens, como é o caso do atual presidente da França, interessados em mulheres bem mais velhas.

A história do jovem Emanuel Macron e da sua mulher bem mais velha chama muito a atenção geral. Mas não chama tanta atenção, por exemplo, o atual presidente dos Estados Unidos com sua mulher muito mais jovem. Neste segundo caso percebe-se essa situação como “natural’’. Mas o caso da mulher mais velha é quase visto como um caso de “perversão’’. A grande diferença de idade passa a ser considerada como um caso de amor maternal equivocadamente dirigido, tipo um “Édipo invertido”…

CM – E a sexualidade vivida pelos casais que permanecem juntos toda uma vida, ou pelas idosas e pelos idosos sozinhos e livres, como ela é exercida, segundo a sua observação?

Pelo lado feminino é quase como anormal, imoral, amoral ou, ao menos, surpreendente que a vida sexual seja mantida. Quando os casais estão juntos durante muitos anos, o tempo traz mudanças na atividade sexual. Ao se apaixonarem ainda jovens, a paixão não permanece idêntica, evidentemente. O afeto, a amizade, a admiração, no entanto, fortificam a relação. E a vida sexual pode permanecer durante toda a união. Atualmente, porém, os casamentos não duram muito tempo  porque homens e mulheres não querem essa mudança. Eles e elas desejam emoções fortes, o êxtase da paixão e não a evolução da relação.

CM – E como se verifica essa transformação?

No casal, os  dois vão mudando os seus objetivos, porém mantendo-se solidários. Não mais produzir filhos, adquirir bens, enfim, metas que já foram atingidas. E, como mencionei,  transformando a paixão em intimidade, em apoio mútuo. Tem que haver uma mudança da sexualidade no casal para que ela seja preservada, porque o fogo da paixão não será mantido. Em geral, casais que se mantiveram unidos durante 50 anos, bodas de ouro, de diamantes, conseguiram essa proeza, que, de fato,  não é fácil.

CM – Por quê?

Porque há dificuldades colocadas pela cultura e pela própria natureza humana. Na verdade, se a paixão fosse  tão duradoura, como de início, a pessoa morreria do coração, porque a aceleração cardíaca, a pupila dilatada durante 50 anos, ninguém aguentaria … há que haver uma acomodação, no bom sentido, uma adaptação da sexualidade para um afeto maior. E é raro ocorrer isso, principalmente por parte dos homens, mais voltados para a continuação dessa paixão.

CM – No passado, havia os arranjos que se davam de modo diferente, com bastante hipocrisia.

Antigamente,  o homem ficava com uma “matriz”  e com várias “filiais’’ – as teúdas e manteúdas. O homem de uma classe social mais alta mantinha o casamento porque para ele era útil do ponto de vista social e financeiro (divisão de bens etc.). Mas agora, com a independência feminina, isto não ocorre tanto quanto antes. Nas culturas onde é aceito o homem ter várias mulheres, isto ocorre desde que ele possa manter as várias esposas. Na nossa cultura se observa que os homens querem sentir as mesmas emoções juvenis, aos 40,50, 60 anos. E vão trocando de companheira, mas não segundo o sistema antigo de teúdas e manteúdas, cada vez mais raro, porque as mulheres não admitem mais esse tipo de arranjo, esse código

CM – Então, o Viagra foi um  instrumento decisivo para uma mudança?

Essa questão do homem potente – com a ajuda de remédios – e sendo poderoso, podendo até ter filhos depois de certa idade, provoca mudanças. Mas há outras mudanças também.

CM – Quais, por exemplo?

Entrando no mercado de trabalho, muitas mulheres não querem  ter filhos quando jovens. Elas estão mais preocupadas com sua ascensão social e profissional. Desejam ter filhos aos 40, 50 anos com a possibilidade de inseminação e de outras práticas. E os homens jovens aceitam e acompanham essas novas situações até pelo bem financeiro do casal.

CM – E por que a aquiescência do homem?

Com as crises financeiras, ninguém sabe quem vai continuar sustentando a família: o pai ou a mãe. É outra realidade que faz os homens jovens aceitarem e concordarem que suas companheiras devem consolidar uma situação financeira confortável antes da maternidade. E mais: com esta crise econômica/financeira atual, pessoas mais velhas, que  tiveram ganhos durante toda a vida, passaram a ser muito importantes na família. Elas sustentam filhos e/ou netos. Sustentam muito mais do que são sustentadas, em todas as classes sociais. E nas médias e altas,  são idosos  quem frequentam os restaurantes, as agências de turismo,  academias de ginástica, tudo que se refere a consumo – gastos ordinários e extra-ordinários. Idosos e idosas fazem o dinheiro circular.

CM – E entre eles, como se processam esses fluxos financeiros?

Os homens mais velhos, mais do que nunca, se casam com frequência com as chamadas “enfermeiras’’. Mulheres bem jovens que não se incomodam de cuidar desses senhores a vida inteira, até com certo afeto por eles. Sabem que neles têm sustento e  aposentadoria garantidos. Em geral, essas moças não têm uma qualificação profissional mais específica.

CM – Os idosos se transformam em “filhos’’, naqueles arranjos de que falamos – e, aliás, também, nos casamentos antigos?

Esta situação da mulher cuidar do companheiro, na velhice, como a um “filho’’, é frequente sim.  E as mulheres da geração dos anos 60 que envelheceram, sempre tiveram um cuidado maior com a sua própria saúde do que os homens – até pelas idas frequentes a ginecologistas, iniciada com a maternidade. E os homens, em geral, morrem com menos idade que a das companheiras. As cuidadoras esposas de idosos com Alzheimer, com Parkinson e doenças crônicas, são em número bem maior do que o contrário. Mas é uma situação que também está mudando. Cresce atualmente o número dos homens cuidadores de suas parceiras.

CM – O que você chama de “sexualidade expansiva’’?

Um valor muito importante na vida dos casais que permaneceram juntos é o cultivo da intimidade, da ternura e da integração. Isto devia ser visto com uma delicadeza maior e com mais seriedade, pois transcende a sexualidade genital, uma sexualidade que chamaríamos de “expansiva’’. Porque a sexualidade não está localizada apenas nos genitais; ela se encontra no corpo inteiro, e no que chamamos de “alma’’, no psiquismo. Trata-se do prazer de estar juntos,  o prazer do toque, da companhia. Aliás, as mulheres de todas as idades reclamam muito de falta de diálogo com os  companheiros . Especialmente as mais velhas.

CM – Por isto elas se reúnem e convivem entre si com mais frequência que os homens idosos?

As idosas, sejam casadas, viúvas ou separadas fazem seus “piqueniques’’ noturnos utilizando serviços conhecidos como os das “vans’’ para frequentar teatros, cinemas, restaurantes,  shows. É um lazer benéfico à saúde e não deixa de ter uma conotação sexual porque envolve sensualidade: estar presente no mundo das sensações, assistindo a uma boa peça de teatro, um bom filme. E o convívio sócio-afetivo é muito importante para a saúde física e mental.

CM – Mas se observa que as mulheres idosas ainda se mantêm recolhidas quanto à sua sexualidade.

Ressalto que as mulheres ainda ficam muito recolhidas no aspecto sexual, porque a vaidade impera e elas não querem passar por ridículas, não querem passar por “oferecidas’’. O homem, no seu entender, é quem precisa se encantar por ela. Mas o homem se encantar por uma mulher mais velha é mais raro. Em alguns casos, há admiração e atração intelectual de “alunos/nenês’’ por “mulheres/professoras” mais velhas. Por outro lado, os homens quase sempre desejam ensinar – eles têm a pretensão de orientar.

CM – Como se dá a sexualidade entre idosos nas classes populares?

No processo da sexualidade entre idoso ninguém se intromete muito quando uma mulher mais velha quer ter uma relação com um homem mais jovem. São casos em que não pesa a questão de quem vai sustentar financeiramente quem, ao contrário do que ocorre nas classes médias e altas.

CM – E há também uma solidariedade maior.

Entre os mais pobres pode se verificar uma solidariedade às vezes  bem maior entre idosos e mais jovens, do que ocorre nas classes médias e altas. As famílias vivem mais próximas – sobrinhos, primos, tios. Nas classes mais altas raramente existe o personagem do vizinho que leva ao hospital. E os tios, primos, sobrinhos, quase não atuam mais. A família nuclear é cada vez menor: no máximo dois filhos, dispersos em suas ocupações profissionais e de lazer. Ou até um filho único que não cuida da mãe porque ele  e sua esposa trabalham muito e, dizem, não têm tempo para tal. Ou outro/a que vive à custa da mãe ou do pai e gostaria de receber logo uma eventual herança. É uma triste realidade.

CM – Como tentar transformar situações como estas?

Num mundo onde prevalece o materialismo e o individualismo, a capacidade de olhar o outro se obscurece. Precisamos incentivar a convivência com os mais velhos desde a infância, com trocas espontâneas de afeto e consideração.

Fonte: Carta Maior

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