Idoso, Velho ou Antigo?

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Pela lei, ser idoso é ter mais de 60 anos de idade, Porém, essa definição é muito simples e o ser humano muito complexo para este enquadre

O que é ser idoso? Pela lei, é ter mais de 60 anos de idade, estar enquadrada numa legislação própria, o Estatuto do Idoso, que surgiu com o objetivo de protege-las e garantir seus direitos. Porém, essa definição é muito simples e o ser humano muito complexo para este enquadre.

O pré-conceito em nossa sociedade para com os idosos

Pela definição legal eu sou idosa. Hoje estava dirigindo pela cidade, em dúvida a respeito do caminho a tomar e um carro apressado que vinha atrás me ultrapassou e disse:” _ está passeando, velha “?

Claro está que isso demonstra o pré-conceito que existe em nossa sociedade para com os idosos, considerados como pessoas que já não se enquadram no perfil de agilidade exigido nos tempos atuais, em que tudo é efêmero, rápido, fluído.

Eu estava em dúvida, como qualquer pessoa poderia ficar, mas ao ver minha aparência física, sem saber que sou uma mulher ativa, que exerço minha profissão como qualquer outra, que tenho autonomia para gerir minha vida, o motorista do outro carro demonstrou de que maneira a imagem corporal interfere no julgamento moral.

Velho é tudo aquilo que não tem serventia alguma, que não serve para nada, que é descartado. As pessoas podem ser assim consideradas? Penso que não!

A população brasileira, segundo o censo 2010, tem mais de 3.000.000 de idosos acima de 70 anos e há uma estimativa que aponta uma população com mais idosos do que jovens para 2060.

Como descartar estas pessoas? Sendo assim, é preciso mudar o olhar para elas, abrir possibilidades de inclusão e pensar esta fase da vida de outra maneira.

O crescimento da população idosa

O que contribuiu para o aumento da população idosa foi o desenvolvimento científico e tecnológico, as condições socioeconômicas e culturais, as medidas sanitárias, as políticas públicas de saúde, que colaboraram para a
melhoria da qualidade e o aumento da expectativa de vida da população.

Com isso, atingiu-se um progressivo envelhecimento populacional nos diferentes países e um número cada vez maior de pessoas passam a
sobreviver até 70, 80, 90 anos.

Porém, como um sistema vivo, o ser humano é sujeito ao desgaste físico. O envelhecimento não é velhice, mas um processo irreversível iniciado ao nascimento e encerrado com a morte do ser.

Fazem parte do envelhecimento os processos de transformação do organismo ocorridos após a maturação sexual. O envelhecimento é acompanhado por alterações na aparência, no comportamento, na experiência e nos papéis sociais.

Ao contrário do físico, na mente não há desgaste

Contudo, o cérebro pode se manter ativo enquanto for exercitado, exigido. Na mente, não há desgaste, pelo contrário. As neurociências indicam que quanto mais ativa, melhor funciona e torna-se mais apta a apreensões de toda ordem, principalmente ao raciocínio abstrato e formal.

O que pode ocorrer é que pessoas com baixa autoestima ou que não se sintam motivadas para a vida, sintam-se velhas antes que o desgaste físico se estabeleça de fato e o mesmo ocorre inversamente, ou seja, sujeitos cujo corpo se encontra  fisicamente desgastado, podem ter uma intensa vida mental e intelectual.

Por isso, é importante que as famílias e as próprias pessoas atentem para a necessidade de manter atividade física e mental como condição de saúde nesta perspectiva de longevidade, pois existe diferença entre senescência e senilidade.

A diferença entre senescência e senilidade.

No primeiro caso, o processo se dá sem deterioração da mente e a pessoa se mantém ativa e produtiva. No envelhecimento saudável, apesar de existirem mudanças tais como a perda de musculatura, enrugamento da pele, branqueamento dos cabelos, perda de funções sensoriais, como a visão e audição, assim como a diminuição na velocidade de processamento das informações, o esperado é que a mente permaneça apta à aprendizagem, mantendo-se capaz de se adaptar aos estímulos.

No segundo caso, do envelhecimento patológico, instalam-se demências que afetam a produtividade e a vida social do indivíduo, pois são acompanhadas por perda de memória, o que é uma ameaça para a própria identidade, quando a pessoa já apresenta mais vulnerabilidade física e maior risco de comprometimento da autonomia, necessitando de cuidados especializados constantes.

Hoje não há mais dúvidas em relação à necessidade de continuidade do processo de aprendizagem durante toda a vida humana, como uma maneira de se evitar e ou postergar o envelhecimento senil.

A Psicopedagogia tem demonstrado que processos de aprendizagem são mantenedores da vida e, por isso, são considerados processos vitais.

A aposentadoria não deve ser encarada como um fim em si mesma

Um problema com o qual é preciso lidar diz respeito à aposentadoria. Quem se aposenta garante um direito, mas esta fase da vida não deve ser encarada como um fim em si mesma. A pessoa aposentada pode continuar trabalhando, sendo útil à sociedade, seja por meio de um trabalho remunerado ou voluntário.

Existem empresas que contratam idosos porque sabem que a experiência que possuem agrega valor às atividades que realizam. Instituições sem finalidades financeiras precisam de colaboradores e geralmente não possuem recursos para contratação, abrindo campo para o voluntariado.

O importante é se manter ativo, pois no ambiente laboral sempre existem desafios a serem superados e, nestas situações, a aprendizagem está presente.

A importância de se continuar aprendendo

Há também inúmeras possibilidades de ingresso de idosos na educação formal ou informal, seja no ensino técnico, no ensino superior ou em grupos de convivência nos quais a aprendizagem é estimulada. Depois da aposentadoria pode vir a oportunidade de continuação de estudos.

Educação continuada faz parte dos princípios que regem a vida na atualidade. Quem para de aprender, pode fazer um quadro depressivo e ter sérios problemas de saúde, quem se mantém aprendente garante para si e para aqueles com os quais convive, saúde e plenitude nas interações sociais.

As condições psicológicas da aprendizagem estão relacionadas à motivação do sujeito, ou seja, à forma pela qual ele se mobiliza e se direciona para a vida. A motivação é um processo interno e se constitui na resposta pessoal de cada ser humano diante da realidade.

Pode ser extrínseca, quando baseada em recompensas externas tais como um salário, uma bolsa de estudos, um prêmio de qualquer natureza, ou intrínseca, quando é o desejo de aprender, de se auto superar, de fazer aquilo que deseja, que movimenta o sujeito.

A família e a sociedade em geral podem contribuir para que a pessoa  se mantenha motivada intrinsecamente para  aprender e trabalhar, quando investem em seu potencial, dão crédito às suas escolhas, abrem espaços colaborativos nos quais esse grupo possa se expressar e colocar a serviço do outro suas habilidades e experiências.

O papel dos avós na família

Na família, o papel dos avós é relevante, pois são os responsáveis pela manutenção da história que dá significado à vida das crianças, sem contar nos inúmeros casos em que são eles os responsáveis financeiros pelo grupo, os que possuem a guarda legal dos netos ou aqueles que permitem aos pais o exercício de um trabalho fora do lar, o que atesta o quanto são úteis para a sociedade de nosso tempo.

Idosos ou velhos?

Penso que nem um termo nem outro são os mais adequados. Prefiro usar a palavra antigos. As gerações se sucedem umas às outras no tempo e, por isso, falamos daquelas que são antigas e daquelas que são mais novas.  O que é antigo não tem preço, mas tem valor agregado, não é velho. Seu valor se relaciona com o que permitiu fazer, acontecer e realizar!

Júlia Eugênia Gonçalves é Mestra em Educação pela U. F. F. /RJ. Especialista em Psicopedagogia Clínica por E.PSI. BA, Argentina.  Membro do Conselho Nato do Núcleo Sul Mineiro da ABPp; presidente da Fundação Aprender para Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, em Varginha/MG. É autora dos livros Psicopedagogia Para Adultos e Idosos: diagnóstico e intervenção (2020) e Práticas Psicopedagógicas com Adultos e Idosos (2022)

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