O desenho do idoso: as marcas e os simbolismos que o tempo traz

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Em cada ciclo de nossa vida, temos olhares diferentes para as situações que vivemos

O que você acredita que é ser velho ou Idoso? Vários estudiosos colocam seus pareceres sobre o que é considerado idoso, alguns colocam somente idade como referência, já outros apresentam além da idade, outros aspectos como importantes.

 Observem estas etapas de nossa vida

  • A infância é vivida até10 anos

  • A partir de 10 somos adolescentes ,

  • 21 anos adultos.

  • Aos 50 ou 60 anos, já somos considerados velhos,

Vemos que a partir dos 50 anos, somos velhos, não somos produtivos, pois o mercado de trabalho já não privilegia esta faixa etária.

Creio que podemos ter outros olhares sobre este período da vida, assim como, estabelecer novos parâmetros para separar as diferentes fases da nossa vida.

Esta tabela apresenta as características de cada etapa:

  • Do nascimento aos 15 anos: o indivíduo ainda é dependente, sendo que, nesse período, se prepara mais tarde buscar suas metas. Por estas serem pouco específicas ainda não conseguem estruturar a sua personalidade;

  • Dos 15 anos aos 25 anos: é a etapa de expansão, preparatória para a autodeterminação experimental das metas traçadas no período anterior, chegando à maturidade;

  • Dos 25 anos aos 45 anos: como adulto, já consegue desempenhar as metas preestabelecidas;

  • Dos 45 anos aos 65 anos: é um período de conflito entre a expansão e a contração. O que domina é a retrospectiva das metas da vida e das   realizações obtidas até este momento;

  • Depois dos 65 anos: o movimento é o da contração que se caracteriza pelas colocações de metas, mas agora a curto prazo, e acrescido da continuidade das já traçadas, havendo também nesse período a auto avaliação ou retrospectiva que traz ao indivíduo o senso de realização ou de fracasso.

Gosto desta classificação, pois esclarece as especificidades de cada uma das etapas. Cabe então pensar o que significa ser velho, ser idoso?

Será que estar velho, seria estar na última etapa de nossa trajetória? A esta pergunta podemos ponderar pensar na velhice ou no idoso como um processo biológico, afinal, a partir do dia que nascemos vamos nos tornando cada dia mais velhos, mais idosos, o processo biológico nos levará a alcançar nossa maturidade.

Mas o ser humano não é somente um ser biológico, ele é um ser psicológico, cultural e social, e o seu desenvolvimento vai perpassando por todos estes aspectos, podendo ser visto como olhássemos para um cristal, de cada ângulo que você olha, tem um brilho especial, um novo filtro.

Cada cultura trata seus idosos de uma maneira diferente, os orientais têm muita admiração e consideração pelos seus idosos. São reverenciados como aqueles que carregam a sabedoria.

Sabemos que esta população tem características típicas de sua faixa etária, e que fazem parte de uma sociedade, a qual os coloca frente as relações aos outros indivíduos e também com sua própria história, sendo que estas vivencias psicológicas podem afetar seu físico e vice-versa.

E a relação deste ser com o tempo, vai ser sentida de maneira diferente por cada um, mas a sociedade determina o lugar do velho do idoso, levando em conta os diferentes individuais, e assim, o indivíduo será velho de acordo com a determinação social.

Podemos assegurar que cada autor tem um parâmetro para dividir os ciclos da vida, mas a maioria afirma que, nos últimos estágios, o indivíduo quase sempre revê suas posturas, as suas posições na família e no seu trabalho. Resinificando, portanto, seu modo de agir diante das diferentes situações que a vida apresenta.

Imagino, que, nestas etapas, os desenhos podem trazer estas questões referentes às escolhas, aos desejos, ou ainda sobre como se colocam diante das situações da vida, pois acredito que, trazemos para os desenhos nossas demandas.

É importante sabermos que os desenhos são mais que traços e riscos, eles também podem ser impressões deixadas em muros, em guardanapos, em outras tantas superfícies; os desenhos são uma linguagem, podemos, portanto, podemos imaginar que as rugas dos rostos dos velhos, são desenhos deixados pela vida.

Para verificar realmente o que os desenhos dos mais velhos trazem, devemos saber como e quando solicitamos que desenhe, ou ainda se vamos propor temas, ou se deixamos o desenho fluir livremente pois de acordo como solicitamos um desenho, estes podem trazer diferentes aspectos.

Em cada ciclo de nossa vida, temos olhares diferentes para as situações que vivemos. Cada indivíduo também vai se modificando, dependendo das suas vivências no transcorrer de sua vida.

O desenho estabelece ligação entre o mundo objetivo e a imaginação, entre a realidade e o sonho. Entre o universo individual e universo social. Os símbolos são na sua maioria elementos inexplicáveis. Desta maneira, não são facilmente descritos por meio das palavras, eles trazem à tona acontecimentos ou fatos de maneira mais natural, o que estava no inconsciente.

Desta feita podemos afirmar que, tanto para a arte, como para ciência, o desenho é um instrumento de conhecimento, pois possui grande abrangência, como um meio de comunicação e ou de expressão.

Podemos, portanto, acreditar que o desenho possui uma natureza toda especial, é uma forma que podemos utilizar para comunicar ideias, as quais não queremos ou não podemos expressar verbalmente, e, muitas vezes, pode trazer algo ainda inconsciente. O ato de desenhar difere do ato de copiar formas, porque desenhar é criar, é imaginar.

Desenhar pode ser entendido como uma forma de se aproximar do mundo. Portanto penso que tanto adultos como velhos podem se valer dos desenhos para se comunicar, visto que esta autora afirma que desenhar é conhecer, é apropriar-se.

Penso que para os velhos é extremamente importante, mas, para tanto, deve ser realizado um trabalho contínuo prazeroso e livre sem imposição.

Creio que muito pouco se trabalha sobre o desenho nesta faixa etária, sua linguagem, é tão valiosa, tão importante, pois traz exatamente o que sentimos, sem filtros, sem censura que fazemos quando falamos.

Em Arteterapia, trabalhando com os mitos, conheci os tempos de cada indivíduo, o Kronos e o Kairos.

O tempo Kronos faz com que acreditemos desde muito cedo que a vida é uma sequência de ações e, agindo assim, cada vez nos distanciamos mais de nós mesmos, isto é, aceitamos as imposições de Kronos para sermos mais bem aceitos na sociedade na qual vivemos.

O idoso já viveu neste tempo, já teve rotinas, fez acontecer, agitou, agora vive o tempo Kairos, que é um tempo não linear. Este é o tempo daquele que está em processo de mudança, é, desse modo, um tempo não consensual, é o tempo da passagem, das mudanças.

É o tempo das histórias individuais, das escolhas que temos, de colocar cor na vida, é um tempo de cada indivíduo ser o que realmente é, sem máscaras, é o encontro consigo mesmo

Os desenhos podem trazer várias simbologias, para adultos e idosos, outras simbologias surgem, pois estes têm um percurso mais longo e com significados diferentes, considero que o local que desenho ocupa, não é só o papel, é o  campo do possível, do devaneio, das invenções.

Como os idosos estão em outra fase da vida, quando desenham, quase sempre trazem aspectos passados, trazem pontes cuja simbologia é a passagem de um lado ao outro, sabemos que  estão passando mais uma nova e importante etapa de sua vida.

Trazem também as cercas, que simbolizam a proteção ou afastamento, outros aspectos que encontramos muito nos desenhos dos idosos, são as árvores com troncos muito finos, o que pode nos contar sobre sua fragilidade e insegurança, visto que alguns deles passam a viver junto aos filhos em cidades ou bairros que desconhecem gerando desconforto e insegurança.

Como será que estão se sentindo nesta pandemia? Como estão vivendo o seu tempo Kairos, sem poder sair, sem poder contar suas histórias seus causos? Sem abraçar seus netos e netas? Os desenhos desta etapa, nos mostra a separação, as vezes se colocam em gaiolas, ou mesmo acorrentados. Os desenhos são tristes, sem vida, e sem muita cor.

Considero que os desenhos podem ser entendidos como o retrato de nossa alma quando desenhamos, que não há acasos nos desenhos, tudo que está desenhado, deveria estar lá. Portanto vamos observar mais estes desenhos, não só no Dia do idoso – 1 de outubro – mas, sempre.

Nancy Rabello é formada em Pedagogia pela PUC de São Paulo e em Psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae. Arteterapeuta pela Faculdade Mozarteum de São Paulo. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura pelo Mackenzie. Autora do livro “O desenho do idoso. As marcas e os simbolismos que o tempo traz”.

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